Um sonho que nasce da terra
Foi ali, na Serra da Mantiqueira, que uma psicóloga decidiu transformar um sonho antigo em projeto de vida — e em arquitetura.
O terreno escolhido fica em um condomínio rural cercado por mata nativa, que na prática se organiza como uma vila. Um lugar onde o silêncio é atravessado pelo som dos pássaros e onde as construções seguem um princípio simples: viver em harmonia com a natureza.
Desde o início do projeto urbanístico, a proposta era clara: abrigar casas construídas com recursos naturais sempre que possível, buscando reduzir ao máximo o impacto ambiental das construções.
As ruas receberam bloquetes ecológicos e a rede de abastecimento de água foi executada com os chamados “canos verdes” (PPR e PEAD), substituindo o PVC tradicional e priorizando materiais mais seguros para a qualidade da água consumida pelos moradores.
Os projetos precisam ser aprovados tanto pela prefeitura quanto pelo comitê interno da vila, que estabelece diretrizes e avalia o cumprimento das exigências ambientais.
Embora inserida na mata, a sensação não é de isolamento, mas de proteção – reforçada pelo bom relacionamento com o entorno e pela própria dinâmica entre os moradores, pessoas que buscam um modo de vida low profile, protegido da urbanização intensa.
Localizada a cerca de 14 quilômetros do centro urbano de Piracaia, a propriedade fica a aproximadamente 2h10 de São Paulo e cerca de 1h20 de Campinas. O acesso se dá idealmente por veículos 4×4 em períodos mais chuvosos, embora carros convencionais também trafeguem normalmente.
É nesse cenário da Serra da Mantiqueira que ganha forma uma arquitetura que dialoga profundamente com a paisagem e propõe um novo modo de habitar.
Construir como prática de consciência
Ao longo dos anos, parcerias com universidades e empresas privadas transformaram a vila em um pequeno laboratório de experimentação construtiva. Diferentes técnicas foram testadas ali: tijolos de adobe e solo-cimento, pau-a-pique, estruturas com toras de eucalipto, telhados em arco romano, acabamentos em terra e cal, forros térmicos em lona e bambu, reaproveitamento de vidros e casas pré-fabricadas com madeira de reflorestamento.
Implantada em uma área de aproximadamente 23 hectares de mata nativa, com biodiversidade preservada e nascentes próprias, a vila reforça a ideia de que o território faz parte do próprio projeto de habitar.
As casas contam com sistemas de captação de água da chuva e tratamento de esgoto, e algumas também utilizam aquecimento solar. A água da chuva é captada pela cobertura das casas e direcionada para cisternas, sendo utilizada no abastecimento dos vasos sanitários e na irrigação de jardins. O tratamento de efluentes também segue princípios naturais, com soluções adotadas pelas residências para reduzir o impacto ambiental e favorecer o retorno seguro ao solo. A vida na vila preserva a autonomia de cada casa, mas conta também com alguns espaços e iniciativas compartilhadas. Há um salão comunitário – que pode receber encontros e celebrações organizados pelos moradores ou ser reservado para uso particular – além de uma quadra poliesportiva, pomar e trilha na mata.
Quando a arquitetura ganha forma
A relação da psicóloga com a vila começou durante seu mestrado em sustentabilidade, quando teve o primeiro contato com o lugar. A experiência despertou o desejo de um dia construir ali. Nos anos seguintes, adquiriu um terreno na vila.
E foi durante a pandemia que decidiu iniciar o projeto. Nesse momento surgiu também a oportunidade de adquirir o terreno vizinho – o que permitiu desenvolver duas casas: uma para morar e a outra pensada para venda.
A decisão partiu também de uma constatação clara: há pouca oferta de casas de campo com arquitetura autoral em escala mais enxuta. No mercado, grande parte das residências assinadas por arquitetos costuma ter metragem muito grande e custo elevado.
A proposta foi criar uma casa contemporânea, integrada à natureza e pensada para quem busca viver – ou simplesmente ter um refúgio – no campo, sem abrir mão de um projeto arquitetônico consistente, e próximo de grandes centros urbanos.
O projeto foi desenvolvido pelo escritório Arquipélago Arquitetos, a partir de um sistema construtivo modular de taipa de pilão e madeira e adota uma linguagem arquitetônica coerente, marcada por volumes simples, materiais naturais e forte integração com a paisagem da Mantiqueira.
Em escala enxuta e bem resolvida, as residências organizam os ambientes essenciais do cotidiano – sala e cozinha integradas, uma suíte, um banheiro social e área de serviço – em plantas compactas.
As grandes aberturas em vidro ampliam o diálogo entre interior e exterior. Na frente e nas laterais, as casas se abrem para varandas em seixos miúdos de rio, protegidas por generosos beirais que criam uma transição natural entre dentro e fora e ampliam os espaços de convivência.
Para proteger as paredes de taipa da umidade do solo, as construções são elevadas sobre baldrames que mantêm as paredes acima do nível natural do terreno. Os beirais generosos reforçam essa estratégia, protegendo as fachadas da incidência direta do sol e da chuva.
Essa elevação cria ainda um detalhe arquitetônico interessante: o próprio piso da casa se transforma em um banco contínuo voltado para a paisagem, convidando a permanecer e observar as montanhas.
O projeto também incorpora soluções que refletem o cuidado com os materiais e com o processo construtivo. As bancadas foram executadas com a madeira de itaúba utilizada anteriormente como fôrma na construção das paredes de taipa de pilão, reforçando a lógica de reaproveitamento presente na obra. Entre a bancada da cozinha e a área de estar, um fogão a lenha reforça o caráter afetivo e ancestral da construção.
A materialidade do projeto combina elementos naturais e soluções contemporâneas. As paredes de taipa dialogam com esquadrias de alumínio anodizado na cor champagne e portas em ACM, criando um contraste sutil entre a textura da terra e a precisão dos materiais industriais – escolhidos também pela durabilidade e baixa manutenção. Além das bancadas em itaúba, o mobiliário da casa incorpora superfícies metalizadas, que capturam e devolvem a luz ao longo do dia, criando reflexos suaves que transformam a atmosfera dos ambientes e introduzem leveza aos volumes embutidos na taipa. No fundo da casa, um muro de pedra reforça a inserção da construção na montanha, conectando a arquitetura ao próprio terreno.
Além da casa principal, a propriedade à venda inclui um anexo complementar – a chamada “casinha da mata”. Localizada no pé da mata, junto à área de reserva florestal que faz divisa com o terreno, ela funciona como um espaço versátil, podendo ser utilizada como escritório, ateliê, casa de hóspedes ou apoio à residência.
Implantadas na encosta da montanha, as casas se encontram em um nível elevado em relação à rua. A subida até elas faz parte da experiência do lugar: um breve esforço que, lá em cima, é recompensado pela paisagem aberta das montanhas – capaz de tirar ainda mais o fôlego de quem chega.
Morar como escolha
Esse modo de habitar reflete uma tendência cada vez mais evidente: viver com menos impacto ambiental, mais conexão com a natureza e escolhas conscientes no uso de materiais e energia.
Projetos como este mostram que morar no interior pode ir além da busca por tranquilidade. Pode ser também uma escolha consciente sobre como construir, consumir e viver.
Quando arquitetura e consciência caminham juntas, o resultado não é apenas uma casa — é um posicionamento diante do mundo.
Publicações e reconhecimento
O projeto recebeu reconhecimento nacional e internacional, com publicações em importantes plataformas de arquitetura e design, além de ter sido destaque em reportagem sobre bioconstrução em rede nacional e classificado para a Bienal Latino-Americana de Arquitetura, realizada em Pamplona, na Espanha, reforçando a relevância da proposta no cenário contemporâneo.
Recentemente, o projeto do escritório Arquipélago Arquitetos foi também classificado entre os finalistas do prêmio internacional Terra Landscape Architectural Award, na categoria Integration into the Natural Site — uma das mais relevantes da premiação.
A classificação entre os finalistas já representa um reconhecimento expressivo no cenário internacional, colocando o projeto em evidência entre iniciativas que se destacam pela relação sensível entre arquitetura e paisagem.
Os projetos selecionados integrarão ainda uma publicação internacional que será lançada após a premiação.
O resultado final será divulgado no próximo mês de abril de 2026, e seguimos na torcida pelo projeto brasileiro que se destaca entre os finalistas!
Curadoria
Projetos como este reforçam algo em que acreditamos profundamente na MIIRA: morar bem vai muito além de escolher um endereço. Trata-se de encontrar lugares que reflitam valores, estilo de vida e a forma como desejamos habitar o mundo.
A arquitetura revela essas escolhas. Em cada casa, em cada projeto, existe uma história sendo construída.
Na MIIRA, nosso trabalho é justamente esse: olhar com atenção para os lugares, para a arquitetura e para as possibilidades de vida que cada imóvel pode oferecer, conectando pessoas a espaços que realmente façam sentido para suas trajetórias.
Porque, no fim, morar bem é viver em lugares que tenham significado.

































Projeto: Arquipélago Arquitetos | Fotografia: Pedro Kok
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